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Os determinantes das movimentações do câmbio em 2018

Muito se discute acerca dos determinantes da taxa de câmbio em 2018. Embora uma pequena parcela das desvalorizações observadas no período seja creditada à incerteza das eleições em outubro, os principais fatores que determinam câmbio estão relacionados com a conjuntura econômica internacional.

Neste ano, a taxa Selic atingiu o seu menor patamar desde a introdução do sistema de metas inflacionárias (6,50% a.a), ao passo que o FED iniciou um proceso de elevação de sua taxa básica de juros (2% a.a), resultando no menor diferencial de juros já observado. Deste modo, as oportunidades de investimento brasileiras de curto prazo se tornaram menos atrativas em relação ao tesouro americano, assim como a diminuição do custo de hedge cambial para os investidores domésticos.

Ademais, a politica comercial protecionista adotada pelos Estados Unidos desde meados de março provocou uma guerra comercial entre seus principais parceiros. A introdução de tarifas e quotas sobre as importações não só têm elevado o preço das commodities no mercado internacional e reduzido o fluxo de comércio, como também tem aumentado a percepção de risco dos participantes do mercado.

Parece-nos que a resultante destes fatores influenciou na desvalorização do câmbio brasileiro frente ao dólar. Além disso, o mal desempenho de alguns países emergentes, tais como Argentina e Turquia, ainda são mais preocupantes para situação cambial brasileira, uma vez que a crise do peso e da lira vem propagando incertezas sobre as demais economias emergentes, induzindo os investidores a aumentarem sua demanda pelo dólar americano.

Para avaliar a vulnerabilidade das economias emergentes, o FED propôs um índice baseado em seis indicadores: razão entre o saldo em conta corrente e PIB; razão entre dívida pública bruta e PIB; razão das reservas internacionais e PIB, razão entre a dívida externa e exportações anualizadas; média da taxa de inflação anual dos últimos três anos; variação do crédito bancário concedido ao setor privado em proporção ao PIB dos últimos cinco anos.

Em síntese, estes indicadores avaliam a condição de liquidez e solvência de uma nação, como também a sua resiliência em relação à choques de juros e do câmbio. O índice de vulnerabilidade econômica varia de 0 a 100 pontos, sendo que os países mais vulneráveis possuem valores próximos a centena.

Ao analisar período compreendido entre o 2º trimestre de 2016 e o 1º trimestre de 2018 para 17 economias emergentes, observou-se que os três países menos expostos à choques externos são Tailândia, Coreia do Sul e Rússia, enquanto os mais vulneráveis são Argentina, Turquia e Brasil, como sugerem os resultados expressos pela figura ao lado. Cabe ressaltar que os três países mais vulneráveis contemplam o grupo que mais sofreu desvalorizações cambiais em 2018.

No caso da Argentina, os indicadores de inflação média trienal e da proporção dívida externa/exportações são os piores entre os emergentes avaliados. Já a Turquia possui o pior desempenho da razão saldo em conta corrente/PIB, além de possuir a terceira pior performance do indicador dívida externa/exportações. Em termos práticos, estes resultados demonstram a sensibilidade destes países em relação à redução de liquidez internacional, levando à pressões sobre câmbio.

O Brasil, por sua vez, tem o pior desempenho avaliado na relação dívida pública bruta e PIB, como também o segundo pior resultado na proporção dívida externa/exportações. Embora o real tenha se desvalorizado, o País obteve um bom desempenho relativo do saldo em conta corrente e das reservas internacionais em relação ao PIB, o que pode explicar o impacto mais ameno dos fatores externos sobre a economia brasileira, em relação à Argentina e Turquia.

Ainda não se sabe ao certo o desfecho desta história, haja visto os recentes movimentos da conjuntura internacional, tais como o recrudescimento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Turquia, em agosto, bem como a intensificação da guerra comercial travada entre Estados Unidos e China, anunciada na última semana.

Do ponto de vista técnico, a tendência é de um câmbio mais volátil nos próximos meses, sobretudo, pela expectativa de um dólar mais valorizado. Contudo, não desconsideramos o papel da corrida presidencial sobre a taxa de câmbio brasileira, uma vez que o humor do mercado dependerá da agenda do candidato escolhido nas próximas eleições.

Fonte: Unidade de Estudos Econômicos FIERGS